Os Dias Que Fazem a Gente Melhorar ( Caderno de Lausanne)
Em Lausanne, há dias que
passam como o bonde do fim da tarde — exatos, discretos, quase educados demais
para deixar marcas.
Mas há outros que se infiltram, que se instalam em silêncio entre o café da
manhã e o primeiro toque do sino na colina. Não prometem nada, não anunciam
mudanças. Só deslocam o ar por dentro.
São os dias em que o lago
parece respirar junto, e as montanhas — essas que nunca se apressam — nos
ensinam o valor da demora.
Dias em que o pão ainda quente da padaria da esquina parece um gesto de
acolhida.
Dias em que a saudade não dói como antes, apenas se acomoda, feito um casaco
esquecido na cadeira.
Melhorar talvez seja isso:
deixar que o tempo passe pelo corpo sem resistência.
Aceitar o passo lento da manhã fria, o trem que parte antes de chegarmos, o sol
que se recusa a sair por completo.
A cidade, com sua pontualidade e seu silêncio, parece saber que há curas que
não se apressam.
Os dias que fazem a gente
melhorar não têm epifania. Têm chá morno, casaco de lã e o som distante de um
violino vindo da praça.
E quando anoitece — e o lago escurece de um azul profundo —, algo dentro de nós
se acomoda também.
Não há conclusão, nem final
feliz.
Apenas o movimento suave de seguir, como quem vira mais uma página do caderno e
continua a escrever.
Silvia Marchiori Buss
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