Dona Iracema e o Fim do Laranjal
Dona Iracema era dessas mulheres que já nasciam prontas. Nunca teve tempo pra frescura. Acordava cedo, fazia café forte, lavava roupa sem reclamar da água fria e ainda tinha coragem de sorrir no fim do dia — mesmo com a coluna pedindo arrego.
Criou três filhos, cuidou
do marido com devoção e nunca deixou faltar um prato de comida, nem que o arroz
fosse solitário na panela. Aldomiro, o marido, partiu primeiro. Um infarto,
dizem. Ela, serena, segurou-lhe a mão até o último suspiro. E foi ali, naquela
cama estreita de hospital público, que sussurrou:
— Me espera lá, Miro. Eu
ainda chego. Nem que tenha que andar até o fim do mundo.
Depois disso, a vida foi só
repetição: colher laranja, cozinhar pra ela mesma, lembrar sem chorar. Até que,
numa manhã de sol calmo e cheiro de fruta madura, Iracema sumiu.
Simplesmente.
Não levou bolsa, documento,
nem um lenço de reserva.
As roupas estavam no varal. A panela, ainda morna no fogão.
Desapareceu feito vento.
A vila entrou em rebuliço.
— Uma jiboia a comeu.
— Um ET a levou.
— Fugiu com algum caminhoneiro.
Tudo isso — e mais — passou
pela cabeça dos conhecidos.
Mas quem a conhecia sabia: Dona Iracema não fugia. Nunca fugiu. Nem da dor, nem
da saudade. Só podia estar cumprindo promessa.
Quando deu por si, estava
numa fila. Longa, calma. Nem um grito, nem um empurrão. Um silêncio limpo,
branco, florido. Tudo cheirava a lótus e lembrança lavada.
— Aqui é o céu? — perguntou
ela a um rapaz de uniforme claro.
— É... algo parecido — respondeu ele, sem tirar os olhos da prancheta.
— E o Aldomiro? Deve ter passado por aqui já faz uns aninhos. Homem bom, cabelo
ralo, bigode bem aparado, gostava de café preto e jogo do Inter.
— Nome está sendo consultado... — respondeu o rapaz, enquanto um pequeno ponto
verde piscava numa tela invisível.
Depois de horas — ou anos,
vai saber — chamaram por ela.
Uma guardinha sorriu com leveza e apontou um caminho.
— Pode seguir, Dona Iracema. Sua morada está adiante.
— Morada? — ela franziu o cenho. — E o Miro?
— Tudo a seu tempo.
A casa era pequena, limpa,
com cheirinho de bolo no forno e jasmim na janela. Aldomiro estava na varanda,
tranquilo, lendo um jornal que parecia feito de nuvem. Ao lado dele, de vestido
florido e cabelo arrumado, estava... Juraci. A vizinha. Aquela mesma que, em
vida, vivia oferecendo “bolo pro seu Miro” e dizendo “se precisar de qualquer
coisa, tô sempre por aqui, vizinha”.
Iracema congelou.
Juraci foi a primeira a falar:
— Mas veja quem chegou! Iracema! Que alegria!
Aldomiro levantou, ajeitando a calça de linho com aquele ar de quem sabe que
alguma coisa vai cair do céu — e caiu.
— Iracema... eu... tava esperando. Mas a Ju chegou antes...
Iracema respirou fundo.
Entrou. Sentou-se.
— Café tem? — perguntou, como se estivesse visitando uma casa qualquer.
Juraci correu à cozinha,
toda prestativa.
Aldomiro coçou a cabeça:
— Eu tentei te explicar. Mas aqui... o tempo é outro. A gente não sabe o que
vem primeiro. Ela chegou, foi ficando... e agora tudo é tão tranquilo...
— Tranquilo é diferente de
bem explicado — cortou Iracema, firme, mas sem levantar a voz. — Tu sabe que
mulher não gosta de ser surpreendida. Nem na vida, nem depois.
Juraci voltou com a
bandeja, sorridente:
— Fiz do jeito que tu gosta, Iracema. Forte, passado no coador de pano. Igual
tu fazia pro Miro.
Iracema pegou a xícara,
provou. Estava mesmo no ponto.
Ficaram os três em silêncio. O tempo ali parecia suspenso entre a eternidade e
a ironia.
Depois de um gole mais
longo, Iracema disse:
— Vou ficar. Cumpri o que prometi. Vim te encontrar, Aldomiro.
Ele ia responder, mas ela
ergueu a mão:
— Não precisa. Já vi o suficiente. Só quero uma rede, um canteiro de hortelã e
meus dias em paz. Se tiver rádio com música de viola, melhor ainda.
Juraci sorriu, quase
aliviada:
— Claro, claro. Vai adorar. Aqui tem até programa de auditório, se quiser.
Iracema não respondeu.
Olhou o céu branco, inalcançável. E pensou, com o coração já desarmado:
“Que bom que aqui não tem
mágoa. Mas, se tiver, eu guardo em pote fechado. Porque no céu, até
ressentimento tem validade curta.”
Sorveu o último gole.
— Ah... e se algum dia eu resolver sumir de novo, nem adianta procurar. Pode
ser que eu encontre outro pedaço de céu. Um só meu.
E então, Dona Iracema
levantou, ajeitou o vestido e foi cuidar de suas novas plantas.
Porque, afinal de contas, mesmo no céu, ela ainda preferia estar ocupada com o
que floresce.
Silvia Marchiori Buss
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