As Estações do Luto

O luto é um tempo de saudade. Um intervalo entre a dor da perda e a aceitação de que o amor permanece, ainda que a presença tenha se dissolvido no ar. Ele chega sem convite, implacável, e se espalha por dentro como um inverno frio, cobrindo tudo com a ausência.

Acredito que o luto começa a se transformar quando atravessamos todas as estações desde a partida do ser amado. Na primeira primavera sem ele, cada flor parece florescer em descompasso com o coração. No verão, a luz do sol aquece a pele, mas não alcança a alma. O outono traz folhas secas que dançam ao vento, lembrando de tudo o que se foi. No inverno, o frio do vazio se instala como hóspede insistente.

Mas, quando o ciclo se completa e voltamos à estação em que começamos a contar o tempo sem aquela presença, algo se suaviza. Já não é mais o primeiro inverno sem ele, a primeira primavera sem sua voz. Já sabemos como o verão brilha mesmo sem seus olhos refletindo o sol. E assim, pouco a pouco, a saudade se transforma: não some, mas se molda à vida que segue.

No início, cada lembrança pesa, arrasta, paralisa. Com o tempo, aprendemos a lembrar sem o peso do luto. As memórias deixam de ser um ponto de dor para se tornarem um espaço de carinho. Já não são feridas, mas laços invisíveis que nos unem ao amor que nunca morre.

O luto não passa – ele se transmuta. A dor intensa se acomoda num canto discreto da alma, e no lugar do pesar, fica uma saudade doce. Uma saudade que nos permite criar novos momentos sem culpa, sem medo, sem a sombra do adeus. Uma saudade que respeita a ausência, mas também celebra a vida que segue.

Pois quem partiu vive em nós, nas estações que se repetem, nos dias que se alongam, na luz e no vento que tocam nossa pele. O amor nunca se vai. Ele apenas aprende a respirar de um jeito novo dentro de nós.

 

 

Silvia Marchiori Buss

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